Sem a existência de uma linha orientadora, no sentido de manter a traça original, cada operador turístico alterou as suas embarcações, a seu modo, respeitando somente as normas de segurança e outras exigências.
Etelvina Resende Almeida *
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A perda da identidade das tradições das gentes ribeirinhas e do seu património navegável lagunar é um facto. O panorama das embarcações tradicionais, em termos de preservação, é preocupante.
Desde que as actividades lagunares ligadas à utilização destas embarcações diminuíram, ou até se extinguiram, que se verifica esta perda.
Como qualquer artefacto, ou ferramenta de trabalho, com um ciclo de vida no seu término e uma funcionalidade que se extingue, esta deixa de ser útil ao homem e torna-se obsoleta.
É o caso das grandes embarcações tradicionais lagunares: o barco mercantel (saleiro) e o barco moliceiro, não abordando outras tipologias de médio porte já extintas.
Dentro dos canais da cidade de Aveiro encontram-se poucos barcos mercantéis a navegar em actividade marítimo-turística. E os que existem já foram adaptados, na forma, dimensão, decoração e propulsão, para o fim a que se destinam.
Do tradicional barco mercantel, ou saleiro, a navegar à vela pela laguna, fica a “memória”, ou a visita a um único exemplar em ambiente museológico. Tal como o barco mercantel, o número de barcos moliceiros diminuiu devido à extinção da apanha do moliço.
O barco moliceiro como ferramenta de trabalho tornou-se obsoleto. A sua utilização passou a ser de lazer e de competição nas tradicionais regatas, em festividades da beira-ria.
A preservação dessas embarcações deixou se ser viável para o proprietário particular, porque além de não oferecer rentabilidade exige uma constante e dispendiosa manutenção.
Atracados, ancorados ou encostados, os barcos foram “finando” – encalhados à beira-ria durante meses… anos, entregues ao seu fim último, o da degradação.
A ideia de recuperar essas embarcações para fins turísticos, nomeadamente o barco moliceiro, surgiu como uma forma de rentabilizar um ícone que se estava a perder. Mesmo tendo sido feita com fins lucrativos, a recuperação destas embarcações surgiu como uma “tábua de salvação” – uma solução temporária, mas não efectiva.
Adquiridos por empresas marítimo-turísticas, foram recuperados, reconstruídos e “adaptados” à sua nova função, o de passear turistas pelos Canais da cidade de Aveiro e por Ria aberta.
Sem a existência de uma linha orientadora, no sentido de manter a traça original, cada operador turístico alterou as suas embarcações, a seu modo, respeitando somente as normas de segurança e outras exigências das entidades competentes. Os barcos foram surgindo pelos canais da cidade com outra palamenta (novos apetrechos), alterados na sua forma e dimensão, alguns na decoração e, obviamente, no seu meio de propulsão.
Foi de forma natural, evolutiva, mas comercial e “anárquica”, que os operadores marítimo-turísticos traçaram uma nova rota, deram uma nova “vida” e criaram uma outra “pele” aos barcos moliceiros e mercantéis que se encontravam em fim de vida útil.
Estas “novas” embarcações turísticas (adaptadas) são agora um atractivo, um chamariz, para o turista que visita a cidade de Aveiro. Esta actividade tem fomentado o turismo na cidade, tem gerado novos postos de trabalho e novos empreendedores.
Mas em prol da preservação e da manutenção de uma frota exemplar, tradicional, a navegar à vela, que represente e dignifique as tradições e o nosso património lagunar, nada se fez.
Questiono se será viável seguir somente esta via, a do turismo, nomeadamente o que se realiza dentro de comportas.
Ao longo dos últimos anos poucos barcos foram recuperados, ou reconstruídos, tendo sido um construído de raiz, para laborar como embarcação marítimo-turística em Ria aberta, mantendo a sua forma original e navegando à vela. Os que restam, encontram-se nas mãos de particulares, um deles é pertença de um município, o da Murtosa e outro do Clube de Vela da Costa Nova.
Os passeios turísticos pela Ria em barcos moliceiros tradicionais, à vela, são um nicho a explorar, podendo vir a tornar-se numa fonte de riqueza e, ao mesmo tempo, de reabilitação dos que ainda restam, e até fomentar a construção de novos exemplares.
Restam poucos barcos moliceiros tradicionais com a traça e os meios de propulsão originais. Mas são estes poucos que representam o grande património lagunar de outrora e que mantêm activas as três Regatas, que ainda se realizam anualmente.
Preservar os que existem, fomentar a construção de novos exemplares tradicionais, dar-lhes um novo uso operando em Ria aberta, mostrando-os na sua forma original e a navegar à vela, tanto em regatas como em trabalho ou passeio, deveria ser a premissa a seguir.
Para que a preservação e a difusão das embarcações tradicionais se concretize será necessário criarem-se incentivos e apoios, por parte das entidades competentes.
Sensibilizando e consciencializando a população da perda deste património material, poderá estimular o pensar e a vontade de criar soluções na esfera privada, ou empresarial, mas sobretudo na institucional.
* Licenciatura e Mestrado em Design | Universidade de Aveiro | Dissertação de Mestrado (Dez.2012):” Embarcações Tradicionais da Ria de Aveiro – um olhar pelo Design”.
